Da série “as alegrias que a blogosfera me dá”.
por Juliana Sampaio 30 de janeiro, 2008, 11:53
Onde mais a gente consegue ler coisas assim, como a que escreveu o Daniel Brazil neste post aqui?
DUAS MULHERES
por Daniel Brazil
Ao folhear a Folha de SP distraidamente, neste domingo (20/01), me deparei com esta foto, na coluna da Mônica Bergamo. A matéria era sobre um desfile de modas numa casa elegante, e as duas figuras contrastantes me chamaram a atenção.
Duas mulheres, talvez da mesma idade, de mundos diferentes. A postura, olímpica de uma, submissa de outra. Os penteados, a maquiagem, as roupas, tudo demonstra existir um oceano entre elas. Mas achei notável que estivessem juntas numa coluna dita “social” de um jornalão de domingo.
A intenção da fotógrafa talvez tenha sido a de integrar dois mundos, mostrar quanto as mulheres podem ter em comum. Provar que, não importa onde tenham nascido, respiram o mesmo ar, freqüentam o mesmo ambiente, têm desejos semelhantes.
Fui à legenda, claro. A verdade estava lá inscrita, pétrea: “Fulana de Tal, vestindo Fórum Tufi Duek, na casa do estilista.” Só.
Apenas uma dessas mulheres existe, para o jornal. A outra pode ser confundida com um vaso ou um animal doméstico. Seu sorriso é uma miragem, seu corpo é uma abstração escondida sob o uniforme masculinizado. Talvez cozinhe melhor, cure melhor, console melhor, faça amor ou cuide dos filhos melhor que sua vizinha, mas isso não conta. Não merece ter o nome divulgado.
Aliás, não é gente. Não pode ter nome.




Bem, não é de hj que as coisas funcionam assim…
isso é triste, mas antes da tristeza vem a razão.
Manuel Bandeira já tinha pré – visto esse bixo que o se homem transforma.
Engraçado é, tentar buscar na imagem todas essas mulheres que os versos contam e cantam. As Lígias, Luisas, Fátimas e Marias não se vestem com grifes. Elas não usam perfumes franceses….elas são lindas, com a própria calidez de suas vidas. Não precisam de “muletas da estação” para serem quem realmente são.
Desabafo de quem também tem que ser Maria todo dia…
Puxa, que legal você ter lembrado esse poema do Bandeira! (Se é que é o mesmo a que estou me referindo, pois não vi muita ligação com o post). Mas esse “O Bicho” que me lembro foi o primeiro poema que me fez chorar na vida. Estava ilustrando algum capítulo de um livro didático, e eu devia ter uns 8 ou 9 anos quando o li pela primeira vez. Pra quem não lembra, vou copiá-lo aqui:
O Bicho – Manuel Bandeira
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Duas mulheres. Dois objetos.
Uma é objeto fútil. A outra é objeto útil.
Uma carrega a marca. A outra marca a própria ausência.
Cada uma “funcionando” na função que lhe coube nesse mundo de homens. Uma alimenta os olhos e alivia os bolsos, a outra alimenta a fome e limpa a casa.
Me lembrou aquela música do Chico: “O acaso faz com que essas duas / Que a sorte sempre separou / Se cruzem pela mesma rua / Olhando-se com a mesma dor / Que dia…”
Mas as nossas duas estão contentes… posando pra câmera e ficando “eternas”.
thanks, juju : )
“Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?!”
Gostei desse post, ressaltou a Maria do cotidiano, ressaltou gente! Que bom isso!!!
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