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Carta aberta aos que não ficaram.

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Materia_CarlaMadeira

Jornal Estado de Minas. 31 de agosto de 2014.

 

Conheça o texto:

Seria tão bom se vocês estivessem aqui. Vocês podem me provar com grandes e competentes números que estão aqui, sim, e que a primeira frase desta carta não faz o menor sentido. Podem argumentar que empregam milhares de pessoas, fazem constantes investimentos sociais, ambientais e culturais. Mas, mesmo assim, eu insisto: seria tão bom se vocês estivessem aqui.

Falo do mercado de comunicação. Talvez vocês busquem os pequenos números para provar que estão, sim, aqui. Pequenos números de coisas, sem dúvida, muito importantes, como a comunicação interna, o job isolado … Ok, ok! Eu sei que um pouquinho de vocês acaba aparecendo por aqui. Mas nós merecemos mais. Sabemos que a comunicação – de gestão e de posicionamento das marcas, dos grandes lançamentos de produtos – que requer investimentos realmente significativos, essa vocês levaram embora.

Não é uma conversa fácil. Não faltarão a vocês argumentos como: precisamos de grandes estruturas, grandes agências, grandes talentos, alta capacidade técnica e criativa etc. Muitos estão convencidos de que apenas São Paulo e Rio entendem de Brasil. Que qualquer outro lugar é menos do que vocês merecem. Mas já pensou que, se vocês estivessem aqui, investindo o que investem lá, esses problemas não existiriam? Nós teríamos como provar que podemos ser tudo o que vocês precisam e esperam.

Alguns de vocês falarão de alinhamento mundial ou nacional das contas publicitárias. Quase um dogma, eu sei. Quanto atrevimento: querer questionar um dogma! Me desculpe, mas é que seria tão bom se vocês estivessem aqui. Entendo que é excelente para as agências o alinhamento global, que elas devem seguir seus clientes mundo afora e afastar o risco de perdê-los para o mercado doméstico. 

O mesmo se dá na dimensão nacional-regional. Eu também quero que meus clientes cresçam e que eu possa ganhar o mundo com eles. Mas e para vocês? Esse é mesmo o melhor e o único modelo possívelUm modelo que ignora o lugar onde vocês produzem e o quanto podem ajudar a transformá-lo? Quantas agências não seriam capazes de se organizar para seguir as exigências de suas estratégias nacionais-globais, oferecendo um conhecimento local capaz de azeitá-las? Estou falando do alinhamento que interessa: trabalho integrado, sinergia, força nas negociações, sensibilidade cultural, equipes talentosas, todos remando para o mesmo lado. Estou falando de acordos operacionais nos quais as regionais não entrem só com o copy/paste! De um fortalecimento local que não tem efetivamente acontecido em função das políticas “intocáveis” de alinhamento. Talvez seja ingenuidade da minha parte, mas podemos criar esse modelo que não existe. Essa não é a alma do nosso negócio? 

No entanto, a questão é: por que vocês fariam isso? Por que fariam alguma coisa por nós se não sentem que estariam fazendo também por vocês? 

Quero muito que vocês me entendam, não acredito em fronteiras como cercas. Não acredito em reserva de mercado. Tenho uma empresa reconhecida e vou até o fim do mundo buscar profissionais, parceiros e fornecedores que façam bem feito o que eu preciso que seja feito. Não aceito que ninguém me diga com quem devo trabalhar. Não peço autorização para buscar fornecedores fora daqui. Como posso, então, querer que vocês fiquem? Eu posso querer, eu e um mercado inteiro, um estado inteiro, que precisa dar certo. Eu posso querer porque, quando vou lá fora buscar o que não tenho, de alguma maneira, trago para cá e não o contrário. E cada vez que eu trago o que não temos aqui, eu transformo o lugar em que vivo com aprendizado, com qualidade, com resultados, com retenção de talentos, com inspiração. Vocês também vivem aqui, produzem aqui, vendem aqui. Seria, mesmo, mais do que bom se vocês estivessem aqui nos ajudando a trazer tudo isso para cá, como alguns de vocês já fazem com outros fornecedores da cadeia produtiva. Seria uma espécie de reciprocidade, que nos tem feito falta. 

O Marcelo Reis foi. O Max Geraldo foi. A Ana Paula Cortat foi. Murilo Moreno foi. O Helder Araújo foi. Digão Senra foi. Carlos Henrique Nascimento foi.Daniela Ferreira foi. Leandro Neves e muitos outros. Seria tão bom se vocês estivessem aqui, pois aí talvez eles também estivessem.

Vale, Fiat, Iveco, Café Três Corações, Itambé e todos os que não ficaram: seria tão bom se vocês estivessem aqui, nós ganharíamos um mundo de oportunidades.

Tenho aprendido que, quando o “não” está garantido, só nos resta a coragem de buscar o “sim”. Espero inspirá-los, espero que vocês nos surpreendam: tragam suas contas publicitárias para casa. Sua casa. Nossa casa, Minas Gerais.

 

Carla Madeira

Diretora de Criação e Planejamento da Lápis Raro

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Comentários:
14
  • […] Carla Madeira, uma das fundadoras da Lápis Raro, uma das principais e mais criativas agências de Minas, publicou um texto lúcido e bastante realista sobre o mercado mineiro de propaganda, que, para quem ainda não o leu –  ou queira fazê-lo novamente -, está aqui. […]

  • […] Carla Madeira, uma das fundadoras da Lápis Raro, uma das principais e mais criativas agências de Minas, publicou um texto lúcido e bastante realista sobre o mercado mineiro de propaganda, que, para quem ainda não o leu –  ou queira fazê-lo novamente -, está aqui. […]

  • […] Carla Madeira, uma das fundadoras da Lápis Raro, uma das principais e mais criativas agências de Minas, publicou um texto lúcido e bastante realista sobre o mercado mineiro de propaganda, que, para quem ainda não o leu –  ou queira fazê-lo novamente -, está aqui. […]

  • Guto Aeraphe disse:

    Acredito que as agências estão provando do próprio veneno, pois a maioria sempre tratou seus fornecedores locais desta mesma maneira…

  • Antônio Achilis disse:

    Carla,

    Seu manifesto é de quem tem caráter – fator crítico na história recente da publicidade mineira. Não sou publicitário – sou jornalista e tive muito relacionamento com agências, na condição de cliente. Sabemos todos que temos dois lados: o da agência e o do cliente. Sempre fui muito crítico em relação a essas empresas – principalmente as que vc. cita – porque sufocam nossas agências tarefeiras, impondo preços safados e impedindo a geração de qualidade. Quando querem algo sofisticado, pagam os tubos em SP e continuam demandando tarefinhas baratas aqui. Como é que se quebra essa falta de lógica? Deve haver no mercado tente como vc, com caráter e brio.

  • Aline Muniz disse:

    Colegas formados**

  • Aline Muniz disse:

    Concordo plenamente. Estou me formando e quando converso com colegas que já são formado e atuam, a frase mais comum é: Esqueça todo glamour que aprendeu na faculdade… Em Belo Horizonte fazemos coisas menores e grandes agências remuneram mal…melhor fazer freelancer. E eu penso exatamente assim: Como seria bom se vocês estivessem aqui…

  • Querido Fernando Gregori, é isso!
    Pontuaria questões muito similares às suas, mas concordando finalmente com Carla.
    Faca de dois gumes, via de duas mãos.
    Incentivo de grandes clientes e muito trabalho pensado, produzido, criado do nosso lado aqui.
    Ainda sonho com um mercado mineiro atrativo e com alta competência para competir com o que vem de fora.
    Carla, obrigada por nos fazer, mais uma vez, pensar nisso.

  • Caro, Fernando Gregori,
    me poupou alguns minutos de tecladas. Perfeito.

  • Celso Renato disse:

    Olá Carla, estou chovendo no molhado, parabéns pela habitual lucidez. Este quadro vem há muito tempo caracterizando o mercado de Minas. Historicamente o estado nunca reteve grandes contas, sempre migrando para centros maiores. O saudoso Edgard Melo da ASA, comentou num programa no inicio do Canal Super (NET) que nenhum executivo de agencia de Minas viajou à Itália nem à Alemanha quando a FIAT e Mercedes-Benz se instalaram por aqui. Isso pautou o modus operandi das agencias na disputa a ferro e fogo das contas públicas. Governo do estado, prefeituras, CEMIG, Copasa e secretarias eram e são disputadas a unha e dentes. Na minha opinião, este cenário foi o combustível para o surgimento do furação Marcos Valério. Nos anos 70 o viés dos desvios de dinheiro público era a construção pesada de infraestrutura, a partir dos anos 80 a publicidade tornou estes processos mais, digamos, “limpos” e cirúrgicos. No ambiente mineiro. onde as contas públicas eram a joia da rainha, seria natural o surgimento do episódio que dragou duas de nossas mais tradicionais agencias. SMP&B e DNA. Admiro desde que conheci vocês na Rua Silva Jardim na Floresta a tenacidade e a retidão da Lápis na atuação do mercado privado. Abs.

  • Fernando Gregori disse:

    Boa tarde Carla,
    Concordo em parte com sua opinião. Mas penso que esse movimento de migração das contas mineiras para SP, infelizmente, faz parte de uma mentalidade tacanha das nossas próprias agências. Explico; nos últimos anos, a grande maioria da agências de BH apostou numa atuação pautada na prestação de serviços para os clientes. Esqueceram que publicidade é mais do que criar folder ou spot apenas quando o cliente pede. Acabaram virando bureau dos clientes. Pararam de oferecer soluções e deixaram de ser parceiros. E contribuiu muito para isso a gigante “juniorização” do mercado. Hoje se conta nos dedos os profissionais Seniors trabalhando nas grandes agências. Em BH, ser Senior em Publicidade é sinal de desemprego à vista. Conheço vários grandes nomes da publicidade mineira que hoje estão lutando por freelas medíocres ou simplesmente abandonando a profissão por não encontrarem mais espaço em meio aos recém formados que inundam as agências e, consequentemente, fazem a qualidade dos serviços caírem assustadoramente. Afinal, com quem esse juniores vão aprender? Com isso, o mercado publicitário mineiro ficou carente de conceitos criativos e, em contra partida, está transbordando títulos engraçadinhos e fantasmas, que nada acrescentam ao negócio do cliente. Acredito que isso acabou por assustar os clientes, que vendo suas agências trabalhando como agências experimentais, acabam por buscar em SP, novos ares e mais profissionalismo. Sei que isso é círculo vicioso difícil de quebrar; verba diminuta – clientes que pagam pouco – agências que não conseguem pagar bem – trabalhos medíocres – clientes indo embora – verba diminuta. Tenho 20 anos de experiência como Redator e Diretor de Criação. Já trabalhei em grandes agências de BH e SP e nunca vi uma crise em nosso mercado como essa atual. E sinceramente, não vejo muita luz no meio do túnel. Tudo que vejo são agências cada vez mais dependentes de verba pública e cada vez menos donas de seus próprios destinos.

    • Rebeca Fidelis disse:

      Perfeito relato. Há que se lembrar, também, de duas situações alarmantes: uma é a do sucateamento do nosso trabalho por vários não-profissionais que se dizem publicitários, além de fornecedores como gráficas, que já “dão de presente” a “arte”, ou mídias que já negociam diretamente com o cliente. A outra é o fato de não termos nem mesmo um sindicato para resguardar as condições de trabalho dos profissionais, visto que o nosso “sindicato” é presidido e comandado pelos próprios donos de agência. Ou seja, os próprios empregadores dizem quais são as melhores condições de trabalho e defendem os empregados? Hummm.. Situação obscura essa. Por essas e outras, cada vez mais o mercado mineiro contrata aprendizes e demite seniores, o famoso “baratin, baratin”. Nessa onda, a desvalorização do salário é tão grande, que um bom profissional já não pode aguentar a pressão e acaba mudando de área. Triste retrato do nosso mercado!

    • Fernando, é mesmo uma questão complexa, mas temos que olhar para ela. Em todo lugar há boas agências e agências ruins. Mas em nenhum lugar há agências boas sem clientes bons. Ser exigente é uma das melhores qualidades que um cliente pode ter, a outra, é ser capaz de dar a agência o que ela precisa para fazer um bom trabalho para ele. Pensar assim, tem sido muito importante para a Lápis Raro.

      • Fernando Gregori disse:

        Claro. Os clientes tem boa parcela de culpa nessa crise toda. Mas continuo achando que é responsabilidade das agências tirar o nosso mercado do buraco que elas mesmo enfiaram. A maioria precisa entender que esse modelo tradicional de fazer PP acabou faz tempo. O que elas fazem hoje, qualquer dupla de freelancers, recém saída da faculdade mais chinfrim, faz melhor, mais barato e sem burocracia. Veja o caso do terceiro maior anunciante do Brasil, segundo o M&M; O Laboratório Genoma, que ninguém tinha ouvido falar. Ele faz sua própria comunicação e sequer cogita usar a Globo como mídia, o sonho de 11 em cada 10 mídias das agências de BH. E essa decisão partiu do dono da empresa, que pasmem, é um publicitário! Mas para isso, as agências precisam urgente mudar seu modo de gestão. Não cabe mais num mercado tão competitivo e profissional, uma agência contratar 15 profissionais em março para em novembro ou dezembro demitir 20. É inconcebível ver agências de médio e grande porte não sabendo fazer um simples planejamento financeiro e estratégico para elas próprias. O que dirá para um cliente. Chega de agência esponja. Todo final de ano é a mesma coisa. Não dá mais para ter ondas de demissões que assolam o mercado e vão parar nos ouvidos dos clientes. E creio que a Lápis tem um papel importante nesse processo. Pela sua história,tradição e jeito de atuar, pode muito bem dar inicio à essa transformação. Minas precisa de um mercado publicitário forte e parceiro dos clientes. Sem o canibalismo, que faz o fee mensal virar uma mixaria ou a excessiva dependência de governo e licitações marcadas. Não sei se estarei nesse mercado para ver isso. Mas até de longe seria muito bom assistir a Lápis liderando esse movimento. Abço

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